Autismo Nível 1: A Importância da Teoria da Mente

Picture of Conceição Fernandes

Conceição Fernandes

O diagnóstico do Transtorno do Espectro Autista (TEA) tem avançado significativamente nos últimos anos. No entanto, um dos maiores desafios clínicos atuais continua sendo a identificação precisa em crianças e adolescentes com baixas necessidades de apoio (frequentemente chamados de Nível 1 ou 2).

Nesses casos, as crianças geralmente apresentam um bom desenvolvimento verbal e comportamentos que se adaptam bem ao ambiente, o que torna os sinais do autismo muito mais sutis. É exatamente nesse ponto que a Teoria da Mente (ToM) se torna uma ferramenta indispensável para um raciocínio clínico de excelência, indo muito além dos protocolos tradicionais.

Em um estudo recente conduzido por nossa equipe e publicado na Arquivos Brasileiros de Psicologia, investigamos a fundo como o desempenho sociocognitivo pode ser a chave para um diagnóstico mais assertivo.

O que é a Teoria da Mente (ToM)?

Em termos simples, a Teoria da Mente é a capacidade humana de compreender os próprios estados mentais e os das outras pessoas. É o que nos permite ler as “entrelinhas” sociais:

  • Reconhecer e graduar emoções (entender a diferença entre estar levemente chateado ou profundamente triste).
  • Identificar crenças falsas ou intenções ocultas em uma conversa.
  • Antecipar como alguém vai reagir a uma determinada situação.

A literatura científica já documenta amplamente que déficits na Teoria da Mente estão intimamente ligados ao autismo. No entanto, a forma como essa habilidade varia dentro do espectro — especialmente naqueles que demandam menos suporte estrutural — ainda precisava de ferramentas de avaliação mais refinadas.

Por que os Casos de Baixa Necessidade de Apoio são Desafiadores?

Crianças com TEA com preservação cognitiva e linguagem fluente costumam “mascarar” suas dificuldades sociais no dia a dia. Se aplicarmos apenas testes de inteligência global ou avaliarmos puramente o vocabulário, essas crianças apresentarão resultados dentro do esperado para o desenvolvimento típico.

Onde moram as diferenças, então? No nível simbólico.

A dificuldade dessas crianças não está em falar as palavras corretas, mas na análise espontânea de situações sociais complexas. Para diagnosticar com precisão, não basta checar sintomas em uma lista; é necessário mapear como a criança constrói o sentido das interações ao seu redor.

A Bateria de Teoria da Mente (ToM-B): Evidências na Prática Clínica

Para suprir a falta de instrumentos padronizados que captassem essas sutilezas, nossa pesquisa avaliou a eficácia da Bateria de Teoria da Mente (ToM-B).

O estudo comparou o perfil neuropsicológico e o desempenho em diferentes tarefas de crianças com TEA (níveis 1 e 2) e crianças com desenvolvimento típico. A bateria ToM-B é inovadora porque não testa apenas o básico, ela engloba desde o reconhecimento simples de emoções em faces até tarefas complexas, como:

  • A organização lógica de histórias sociais.
  • A verbalização espontânea de estados mentais.
  • O controle inibitório e a memória de trabalho (funções executivas essenciais para a socialização).

Principais Descobertas do Nosso Estudo

  1. A importância da fala espontânea: Descobrimos que a tarefa de Verbalizações — onde a criança precisa inferir pensamentos e emoções de forma espontânea ao contar uma história — foi a que demonstrou a maior precisão diagnóstica.
  2. Precisão Científica Elevada: Através de análises estatísticas rigorosas (Curva ROC), o instrumento provou ter uma sensibilidade de 94,7%. Isso significa uma capacidade altíssima de identificar corretamente o perfil neurodivergente, diminuindo os riscos de diagnósticos equivocados ou subdiagnósticos.
  3. Além do QI: O estudo reforçou que perfis neuropsicológicos tradicionais (que medem apenas QI ou habilidades visuoespaciais) não são suficientes para distinguir os perfis de autismo com habilidades cognitivas preservadas. A avaliação sociocognitiva é inegociável.

O que isso significa para as famílias?

Na prática clínica, esses dados reforçam a nossa filosofia: o paciente é muito maior que o diagnóstico.

Utilizar ferramentas robustas e cientificamente validadas, como a ToM-B, nos permite abandonar a ideia de que a avaliação serve apenas para dar um “rótulo”. Ela funciona como um mapa detalhado. Ao compreendermos exatamente em qual nível de complexidade social a criança encontra barreiras, podemos desenhar um projeto terapêutico individualizado.

Isso significa menos tempo perdido com intervenções genéricas e mais foco no desenvolvimento real de autonomia, flexibilidade de pensamento e qualidade nas relações interpessoais.

A ciência profunda e o respeito singular guiam cada etapa do nosso trabalho. Se você busca uma investigação diagnóstica minuciosa, pautada nas melhores evidências científicas para o desenvolvimento do seu filho, [entre em contato com a nossa equipe e agende uma avaliação presencial] (inserir link para a página de contato).

Referência do Estudo: Fernandes, C. S., Barros, P. S., Silva, F. M. B. N., Marques, L., & Charchat-Fichman, H. (2025). Theory of Mind Battery (ToM-B): Psychometric evidence in individuals with ASD with lower support needs. Arquivos Brasileiros de Psicologia, 77:e001.

Conteúdos

Últimos Artigos

Leitura Recomendada: O Novo “Tratado Sobre o Transtorno do Espectro Autista”

O Papel das Funções Executivas no Autismo: O que o Perfil Neuropsicológico nos Revela

Conheça a BToM: A Nova Bateria de Avaliação da Teoria da Mente

Autismo Nível 1: A Importância da Teoria da Mente